Pilares da verdadeira transformação digital, a Inteligência Artificial, a computação em nuvem e a circulação de volumes massivos de dados despontam como tecnologias essenciais para os negócios modernos de diversos segmentos e para a nova economia digital.
Na base dessa revolução está uma poderosa e robusta infraestrutura que é a responsável por sustentar, proteger e escalar tudo o que acontece no dia a dia digital - redes, data centers, pontos de conexão, etc que muitas vezes são invisíveis ou passam despercebidos dos usuários finais, sejam empresas ou pessoas físicas.
Manter todo esse ecossistema funcionando de forma totalmente segura, resiliente, sem qualquer tipo de falha, 24 horas por dia, para garantir conectividade sempre disponível em grandes e pequenos centros, e ao mesmo tempo procurar modernizar toda a conectividade - na busca de posicionar o País como um hub global de dados, de olho num aumento exponencial de demanda de tráfego, outro lado dessa equação igualmente importante - são desafios com os quais os operadores e orquestradores se deparam cotidianamente.
Em mais um evento da série "Conexões JHSP", promovido pela NEC e pela Rádio Eldorado FM, e que ocorreu no último dia 12 de março, na Japan House São Paulo, executivos de destaque no mercado estiveram reunidos para discutir soberania digital, resiliência de rede, proteção e a importância da orquestração inteligente para aplicações críticas.
No debate “O Alicerce da Economia Digital: Infraestrutura como Viabilizadora da IA e Nuvem”estiveram presentes Rogério Garchet, CEO da Eletronet; Marcos Vinícius Peigo, co-fundador e CEO da Scala Data Centers; Rafael Mezzasalma, Country Manager da Nokia Brasil; e Roberto Murakami, Vice-Presidente de Network e Telecom da NEC América Latina. A mediação foi do jornalista Daniel Gonzales.
A infraestrutura que alicerça a economia digital brasileira foi amplamente debatida no painel, que destacou ainda o projeto de ampliação da rede da Eletronet, principal operadora de uma extensa rede de fibra ótica instalada no topo das torres de energia no Brasil. A empresa acaba de escolher a Nokia e a NEC como parceiras na ampliação, em cerca de 50%, da extensão da sua fibra no país - serão aproximadamente 8 mil quilômetros de novas rotas, levando a malha da companhia a um total de 26 mil quilômetros de extensão e presença em 23 estados.
Falando em específico do Brasil, essa discussão ganha dimensão estratégica. O país reúne características raras, como território continental, matriz energética majoritariamente limpa, posição geopolítica estável e um mercado consumidor robusto, que o colocam como candidato natural a ocupar um papel relevante na nova economia baseada em dados. Ao mesmo tempo, enfrenta entraves estruturais que podem limitar essa trajetória.
Ao abrir o debate, o CEO da Eletronet, Rogério Garchet, trouxe a discussão para um ponto fundamental: a relação entre a experiência do usuário e a complexidade da infraestrutura que a sustenta.
“Eu sempre falo olhando um pouco do outro lado, o cliente. E todos nós aqui somos clientes, seja como pessoa física ou jurídica. Buscamos velocidade hoje nas infraestruturas, mas muitas vezes não nos lembramos o que está por trás disso. E ali está um sistema muito robusto que envolve conectividade”.
Ele destacou que o Brasil avançou de forma significativa nessa área nos últimos anos. “Hoje nós somos um País que tem uma das maiores velocidades de banda larga do mundo - e um País que tem uma infraestrutura coberta por mais de 16 mil empresas. Não existe outro no mundo que tenha essa quantidade de empresas de telecom”.
Segundo ele, esse crescimento foi muito acelerado de algum tempo para cá, o que causou certos descompassos. “Muito disso foi composto e construído durante todo esse período, podemos dizer, nos últimos 15 anos, de um crescimento assustador na infraestrutura”. Mas o avanço trouxe efeitos colaterais. “A partir do momento em que você tem muitas empresas, elas começam a ficar, muitas vezes, pouco resilientes”, observou - e isso não tem, necessariamente, a ver com o aumento exponencial de tráfego causado pela IA, segundo Garchet. “A gente acha que a IA chegou agora, mas já tem 20 anos que ela está por aí”.
Nesse novo cenário, a exigência mudou radicalmente, de acordo com o executivo, e isso ocorreu no sentido da busca de mais rapidez e agilidade “O que o cliente mais valoriza hoje? Tempo. Eu falo que hoje a nossa guerra é por tempo. E tempo significa qualidade, resiliência e rede”, afirmou. “É um mundo que não pode esperar um segundo para ter uma resposta”.
Uma parte essencial dessa infraestrutura está instalada em um lugar pouco percebido: as linhas de transmissão de energia, destacou o executivo.
“Quando passamos na rodovia e olhamos aquelas torres de alta tensão, vemos aquelas bolas lá em cima. Aquilo é o cabo que a gente chama de Optical Ground Wire (OPGW), que é o cabo de para-raio. E dentro daquele cabo passa a nossa fibra óptica”, explicou. Ele reforçou a dimensão dessa rede. “Se você imaginar, todos nós que estamos ouvindo aqui o podcast, lendo esse texto, parte da estrutura de dados passa por uma rede como a que a Eletronet tem.”
A capilaridade, de acordo com ele, é ampla, e será bastante ampliada no projeto que envolverá a Eletronet, a NEC e a Nokia, e que foi discutido mais adiante.
“Nós temos hoje 18 mil quilômetros de rede e estamos construindo mais 8 mil quilômetros. Vamos chegar a 26 mil quilômetros. Estamos chegando no Chuí, na divisa com o Uruguai. Vamos chegar na divisa com a Argentina, com o Paraguai em Foz. Vamos chegar também naquela outra tríplice fronteira que muita gente não conhece, em Assis Brasil, no Acre, entre Bolívia, Peru e Brasil. Já estamos em Fortaleza e vamos chegar em Belém. Só faltam três estados para completar o Brasil como um todo”.
A confiabilidade, de acordo com ele, é e continuará sendo um dos principais atributos de uma infraestrutura tão extensa. “A gente tem hoje quase quatro noves, 99,99% de resiliência. Nossos clientes são provedores, grandes operadoras, data centers, OTTs, empresas de conteúdo”.
Garchet sintetizou com uma analogia. “Para ter aplicações na ponta, tem que ter estrada. É melhor andar numa estrada dupla, quádrupla, altamente resiliente, ou numa estrada cheia de buracos?”
Ao aprofundar a discussão, o CEO da Scala Data Centers, Marcos Vinícius Peigo, trouxe a visão dos data centers como núcleo da economia digital. Essas estruturas, ao lado das redes de alto desempenho, funcionam como a base da economia digital, pois armazenam, processam e garantem o funcionamento contínuo dos serviços e dados que sustentam a internet e os negócios modernos. “Quando a gente fala de cloud e inteligência artificial, conectividade e energia são os dois grandes pilares que sustentam essas demandas”, afirmou Peigo.
Como parte da enorme operação da empresa no País, ele citou o campus de Tamboré, na Grande São Paulo. “Ali é o maior campus da América Latina, um dos maiores do mundo. São 17 prédios planejados e já temos 11. É onde 60% da internet do Brasil roda hoje”.
Segundo ele, a inteligência artificial mudou completamente a lógica do setor. “Lá em 2019, a gente media datacenter em quantidade de rack. Hoje a gente mede em potência de energia”. O aumento de densidade, de acordo com ele, foi gigantesco. “A média era de 3 kW (3 kilowatts de consumo) por rack. Hoje a gente entrega projetos de 70 kW e já tem projetos de 125 kW por rack. A densificação fez com que energia se tornasse o principal fator”.
O executivo lembrou da dinâmica da IA nesse cenário, que vem incentivando tanto os projetos de grandes data centers quanto os menores, os edge data centers, trazendo altas demandas de processamento para mais perto das aplicações.
“Quando você pensa em inteligência artificial, você quebra em dois grandes blocos: inferência e treinamento. A inferência precisa de baixa latência, tem que estar muito próxima do usuário. Já o treinamento tolera uma latência maior”.
Porém, apesar das vantagens estruturais, como abundância de locais e de energia, o Brasil ainda está distante do protagonismo global em se tornar um player de destaque no cenário do processamento de dados. “Somos mais de 200 milhões de habitantes, com quase 400 milhões de dispositivos conectados, a 11ª maior economia do mundo. Deveríamos ter cerca de 11% da infraestrutura global de data centers. E temos menos de 2%”, afirmou Peigo.
“Hoje, mais de 60% das nossas cargas de cloud são consumidas em data centers internacionais”. Isso, de acordo com o executivo, prejudica a soberania dos dados - pois o Brasil é obrigado a manter e processar informações sensíveis no exterior - e aumenta a dependência de companhias que atuam nacionalmente dos sistemas externos.
O principal obstáculo que prejudica uma maior expansão, segundo Peigo, é econômico. “Quando o meu cliente compara colocar um data center nos Estados Unidos ou no Brasil, o custo final dele aqui é 38% mais caro. Quando ele vai importar servidores, equipamentos de networking, a carga tributária pode chegar a 60%. Quando você fala de inteligência artificial, não é mais uma unidade. São dezenas, centenas, milhares. A conta não fecha”.
Ele exemplificou. “Num projeto de 100 megawatts, são 1,4 bilhão de dólares no data center e cerca de 6 bilhões em equipamentos. Desses 6 bilhões, 3,6 bilhões vão apenas em impostos, com uma contrapartida extremamente baixa. Dava para fazer duas vezes e meia o data center com esse valor”.
Ao aprofundar o debate sobre o futuro da infraestrutura digital no Brasil, Rafael Mezzasalma, country manager da Nokia Brasil, trouxe sua visão sobre a capacidade do País de acompanhar a nova dinâmica de tráfego impulsionada pela inteligência artificial, com volumes crescentes de dados trafegando entre data centers e exigindo níveis inéditos de eficiência e desempenho, tudo isso sob a perspectiva tecnológica e estrutural das redes.
“Para a gente responder essa pergunta, se o Brasil está no caminho de ter uma infraestrutura digital aceitável, eu acho que a gente tem que voltar um pouquinho atrás. E tivemos uma evolução tremenda em relação à conectividade e às pessoas terem acesso à estrutura digital”.
Segundo ele, esse avanço criou uma base importante, mas também elevou o nível de exigência. “Vemos claramente que as pessoas começaram a ter acesso a cada vez mais banda larga. Então, quando se começa a trabalhar nessa direção, você tem um gosto adicional, que é toda a parte de inteligência artificial”.
Neste ponto, Mezzasalma chamou atenção para um ponto recorrente no debate tecnológico: o foco nas aplicações, muitas vezes em detrimento da infraestrutura que as sustenta. “Quando a gente fala dessa parte de inteligência artificial, sempre falamos de algoritmos e de aplicações, mas muito pouco da infraestrutura que está por baixo disso”, disse.
Esse impacto prático da IA sobre as redes causa desafios de escala quando se analisa a dimensão do volume de tráfego atual. “De uma maneira muito simples, quando você está fazendo uma consulta para um agente de IA, seja GPT, Gemini, Copilot, você está fazendo uma consulta a um banco de dados. Se isso já está modelado, já tem a resposta, vai para um data center mais próximo. Se isso não está modelado, vai para um data center mais longe, esse data center mais longe vai ter a resposta, volta com isso e te dá um retorno”, afirmou.
“Então, você imagina milhões de pessoas fazendo essa comunicação ao mesmo tempo. Isso requer confiabilidade na infraestrutura de conectividade e demandas massivas de crescimento de computação". É essa nova dinâmica que, segundo o executivo, rompe com o padrão histórico de crescimento das redes. “A gente vê que esse tráfego de rede não está tendo mais um crescimento linear, ele está tendo um crescimento exponencial”, destacou.
Do ponto de vista da indústria, o country manager da Nokia fez questão de destacar o papel dos fornecedores de tecnologia na sustentação desse crescimento.
“Somos fornecedores de tecnologia de equipamentos óticos IP e é nessa parte que a gente está contribuindo com o negócio. A questão é: com conectividade mais energia, como podemos fornecer, cada vez mais, um volume de tráfego de dados maior ao menor custo? Pois temos uma métrica muito importante nos nossos dimensionamentos, buscando a obsessão de ter o menor custo transmitido por bit".
Essa busca envolve múltiplos fatores. “A gente tem que buscar a menor latência, ou seja, o tempo de resposta do sistema. E você tem aquela questão de procurar ter a menor potência por bit transmitido também”.
Mezzasalma também destacou a amplitude da atuação da empresa no ecossistema digital brasileiro. “Nós estamos presentes hoje com as operadoras ISPs, as menores, em uma quantidade absurda de operadoras que estão hoje revolucionando o sistema de comunicação digital no Brasil, são mais de 16 mil delas”, afirmou. "Também estamos presentes nas grandes operadoras, em atendimentos diretos de clientes que necessitam de conectividade de data center e em cabos submarinos. A nossa função hoje aqui é realmente trazer a conectividade avançada e inteligente ao menor custo por bit transmitido, com a menor latência, com a menor energia possível”.
Ao projetar o futuro da infraestrutura, o executivo destacou mudanças importantes na arquitetura das redes. “Na parte de backbones, que são as partes que realmente são importantes, esse processo está mais evoluído, mas tem um caminho para seguir”, afirmou.
Ele apontou uma tendência clara de descentralização. “A gente acredita que cada vez mais você vai ter datacenters de inferência, que é onde vai ter essas informações já colocadas, talvez em cidades de 500 mil habitantes. Então, você vai ter uma necessidade de fazer essa interconexão nesses datacenters.”
Além disso, surgem aplicações específicas que exigem processamento local com razões que vão além da performance. “Isso ocorre por várias questões de processo e até de questões de segurança”.
Mezzasalma também trouxe uma leitura geopolítica do momento atual, conectando infraestrutura digital a movimentos globais, o que pode abrir um campo de possibilidades para o Brasil.
“Estamos acompanhando, por exemplo,todo o desenrolar dessa guerra que está acontecendo no Irã”, afirmou, destacando que isso pode impactar decisões de expansão. “A gente começa a ter dúvidas de todo o investimento que está sendo feito naquela região para processamento de computação. O Brasil pode se credenciar para ser uma parte disso, parte desse investimento para cá?”
Mas o tempo, conclui ele, é um fator crítico. “Eu acho que também a gente tem que estar acordado. O tempo é muito importante e a gente tem que acelerar isso. Acho que tem uma oportunidade tremenda para o Brasil realmente ser diferenciado, mas a gente tem algumas pedras para tirar no meio do caminho”.
Roberto Murakami, vice-presidente de Network e Telecom da NEC América Latina, que trouxe uma perspectiva centrada na operação e na integração das redes.
“O grande ponto de uma infraestrutura é a confiabilidade, é a disponibilidade. Tem que estar disponível, porque tempo, realmente, é dinheiro”, afirmou. Ele destacou o impacto direto de falhas, neste sentido. “Se você deixar uma determinada rede cair por alguns segundos, alguns minutos, você está perdendo realmente dinheiro de verdade”.
Na visão de Murakami, um dos principais desafios atuais está na convivência entre tecnologias antigas e novas. “Por exemplo, se você tem muita arquitetura legada, muita rede legada, tecnologias antigas e tecnologia nova, mundo híbrido, essa rede híbrida é mais difícil de você fazer, de você automatizar”, afirmou, comparando com cenários ideais. “Uma rede que a gente chama de greenfield, uma rede nova, é muito mais simples de implementar”.
Já em ambientes existentes, o desafio é maior. “Eu sempre preciso fazer o upgrade disso, eu preciso atualizar aquilo, para você fazer a integração com as outras tecnologias que estão vindo, seja em termos de capacidade de transmissão, seja de roteamento ou de servidores".
Essa evolução tecnológica, reforçou o executivo da NEC, é constante e exige adaptação contínua. Por isso mesmo, torna-se fundamental o papel do integrador neste cenário de planejamento da infraestrutura.
“O papel da NEC é acompanhar tudo isso, com o conhecimento técnico que pode ser empregado nesse tipo de atividade". Com a enorme expansão da IA, Murakami reforçou a mudança estrutural necessária na arquitetura das redes.
“Uma outra coisa que está acontecendo é a criação dos edge data centers, e isso altera profundamente a lógica de conectividade. Com a mudança do que era o backbone para a internet a 5 MB, para uma conectividade com velocidade de 700 MB no usuário final e com edge data center, e ainda com questão de latência baixa, você cada vez mais ter que fazer o processamento perto do usuário”.
Usuário que, segundo Murakami, quer uma experiência completa, rápida e simples, o que contrasta diretamente com a complexidade da infraestrutura.
“O usuário só quer saber se o 5G está funcionando ou não. Ele não quer saber o que está por trás”, afirmou. ”Mas o que existe ali por trás é uma estrutura massiva, com milhares de quilômetros de OPGW rodando, milhares de megawatts de racks, de servidores trabalhando para ele, e vários equipamentos, seja de roteamento, seja de transporte”.
Segundo ele, o diferencial está na forma como tudo isso é integrado. “A questão de como você monta a rede, como você monta a conectividade e como você automatiza isso tudo é o que é importante. Porque isso vai te dar um time to market menor, e o cliente não quer esperar - porque tempo realmente é dinheiro”.
A discussão sobre o futuro da infraestrutura digital no país ganhará em breve um elemento concreto com o novo ciclo de investimentos anunciado pela Eletronet, que ampliará não apenas a extensão da rede, mas também sua capacidade de suportar a próxima geração de aplicações intensivas em dados.
A companhia, principal operadora de uma extensa malha de fibra óptica instalada no topo de torres de transmissão de energia no Brasil, iniciou um projeto que deve expandir em cerca de 50% o alcance da sua rede, tendo a NEC e a Nokia como parceiras estratégicas.
Serão aproximadamente 8 mil quilômetros de novas rotas de fibras, levando a malha a um total de 26 mil quilômetros de extensão e presença em 23 estados, além da implantação de 85 novos edge data centers, totalizando 255 pontos estratégicos distribuídos pelo País.
Mais do que crescimento físico, o movimento, de acordo com Rogério Garchet, CEO da Eletronet, representa um salto em capacidade, qualidade e preparação para aplicações como inteligência artificial, internet das coisas e computação em nuvem.
“Nós estamos fazendo um investimento muito significativo na empresa, é um momento ímpar. A Eletronet tem 26 anos, mas eu sempre uso o nosso novo propósito, de que somos uma startup experiente”, afirmou.
Segundo ele, a estratégia com o projeto de expansão vai além da simples expansão da malha. “A gente está crescendo a rede não só na parte física, mas também com toda a parte de modernização que estamos trazendo. O Brasil ainda tem muita necessidade de conectividade, principalmente nas regiões que mais crescem hoje, que são o Norte, o Centro-Oeste e também algumas demandas no Sudeste e Sul”.
O executivo lembrou que a empresa já opera integrada a um ecossistema relevante. “Nós estamos conectados a mais de 35 entre os maiores datacenters. Estamos fazendo investimento para chegar no mega (e novo) datacenter da Scala que passará a funcionar no Rio Grande do Sul e outros que estão surgindo no Brasil".
Um dos pilares do projeto, reforça Garchet, é levar infraestrutura para regiões menos atendidas, ampliando a capilaridade e aproximando o processamento do usuário final.
“Quando a gente leva a conectividade, a gente leva um pequeno data center para essa ponta. Hoje, nós já temos 170 pequenos data centers que chegam em regiões que a gente nem imagina”, afirmou.
Ele citou um exemplo que ilustra essa realidade. “Quando eu cheguei na Eletronet, há 10 meses, fui ver detalhadamente a rede e vi lá um ponto localizado na Serra da Mesa (Estado de Goiás). Eu falei: ‘meu Deus do céu, o que tem em Serra da Mesa?’ Mas um dia chegou a demanda da Vale do Rio Doce para conectar um data center ali. Existe uma mega indústria a aproximadamente 15 quilômetros desse datacenter".
Com a nova expansão, portanto, a empresa amplia ainda mais essa presença. “Teremos a capacidade de dar infraestrutura para os parceiros de data center, para os parceiros de telecom, para os parceiros de streaming”.
Essa descentralização, de acordo com o executivo, impacta diretamente a experiência do usuário. “Eu sempre pergunto: onde está o conteúdo? O conteúdo está em São Paulo, na grande maioria. Mas eu falo: quando faz um gol lá no Acre, vai demorar quantos segundos para comemorar se ele está vindo buscar o conteúdo aqui?”
A resposta para endereçar esse tráfego da melhor forma, segundo o executivo, está na distribuição da rede. “A gente começa agora a disponibilizar essa infraestrutura e, assim, está começando a colocar os conteúdos nas pontas. Se a gente dá essa segurança para os nossos clientes que vão ao mercado, a resiliência da rede passa a ser um enorme diferencial".
Garchet destacou que essa percepção já está presente entre investidores. “A gente está sendo muito abordado por várias empresas que estão querendo fazer investimento no Brasil e, quando conhecem a nossa infraestrutura, perguntam se teremos capacidade de entregar. Porque isso é um diferencial grande que oferecemos".
A execução do projeto, no entanto, envolve desafios relevantes. “Fazer 8 mil quilômetros no Brasil não é fácil. E chegando à região Norte, a gente está colocando rede na selva, literalmente. Mas o cronograma já está definido: são três fases. Isso vai ser entregue em julho, outubro e dezembro. Todas essas redes vão estar prontas para atender, inclusive a Scala lá no Rio Grande do Sul.”
O CEO da Scala Data Centers, Marcos Vinícius Peigo, aprofundou a discussão ao explicar como a expansão da conectividade se integra à estratégia dos data centers.
“Quando desenhamos a companhia, pensamos nela como uma plataforma e decidimos fazer uma aposta grande no Brasil, que concentra quase 80% dos nossos investimentos”. Segundo ele, o país reúne condições únicas. “É um país de dimensões continentais, em que a gente enxerga o core e o edge, em que a gente enxerga os grandes campos de datacenters”.
A empresa, reforçou Peigo, optou por um modelo diferente do padrão tradicional. “Os nossos datacenters não são neutros no sentido de que são configurações padronizadas para vender pedacinhos. Os nossos projetos são customizados, feitos para grandes clientes”.
Esses clientes, afirmou ele, têm demandas distribuídas. “Esses grandes clientes também têm demandas regionais de pequena capacidade. E aqui está o grande desafio da Scala: como é que a gente abraça o cliente e o atende fim a fim". Peigo destacou que os grandes centros continuam sendo fundamentais. “Não tem como ficar fora de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Fortaleza, de Campinas. São os centros onde você já tinha presença de conectividade".
Ele relembrou a origem de um dos principais hubs. “Quando a gente pensa no campus de Tamboré, as pessoas perguntam por que fazer um campus tão grande ali. Simples: o principal nó de rede da América Latina estava ali. A gente acreditou na possibilidade de pegar aquele monte de prédios que tinham outras funções e ir comprando um por um, transformando aquilo em um grande campus”. O avanço foi além do esperado. “Quando a gente aprovou o plano, especialistas disseram que só dava para colocar 50 megawatts ali. Hoje já temos 450”.
Para o executivo, o futuro está na integração entre core e edge “O core é só um pedaço da história. O edge é que vai alimentar o core. “Não adianta eu ter um data center de 1 gigawatt em São Paulo se não tiver capilaridade. Sem capilaridade, não tem cidade inteligente, não tem carro autônomo, não tem telemedicina”.
É essa expansão que, segundo ele, cria um ciclo de desenvolvimento. “É quase um dilema: eu não tenho aplicação porque não tenho infraestrutura ou não tenho infraestrutura porque não tenho aplicação?”
A resposta, analisou Peigo, está na antecipação. “Quando você mostra para o mercado que a infraestrutura existe, você estimula o desenvolvimento de aplicações. Quando a gente olha para essa combinação de core e edge, com energia, neutralidade geopolítica, estabilidade geográfica, capilaridade e engenharia comprovada, o Brasil começa a se posicionar como um player global, se apresentando passo a passo nesse cenário”, afirmou.
O papel do novo backbone óptico que está sendo implementado no Brasil representa um salto tecnológico que não se limita à expansão física, mas redefine padrões de eficiência, capacidade e integração da rede.
Rafael Mezzasalma, country manager da Nokia Brasil, destacou que o projeto conduzido em parceria com a Eletronet e com a NEC representa a adoção do que há de mais avançado em comunicação óptica no mundo. “São equipamentos que realmente trazem aquele conceito de maior volume de transmissão de dados possível pelo menor custo por bit, o menor tempo de latência e a menor energia por bit também”, afirmou.
Segundo ele, o avanço tecnológico atual está diretamente ligado à capacidade de extrair mais desempenho da infraestrutura existente. “Você tem a fibra e você passa o volume de transmissão de dados nessas fibras. E a gente está chegando ao limite físico da fibra de transmissão de dados”.
Para ilustrar, ele recorreu a uma analogia direta. “A rodovia é a fibra, os veículos que passam naquela fibra são os dados. Então, quando você precisa passar mais veículos, que são mais dados, anteriormente você precisava construir mais fibras. Hoje, a gente consegue utilizar aquela mesma fibra e colocar várias pistas nela”.
Esse avanço, ressaltou ele, está diretamente ligado às demandas das grandes empresas globais de tecnologia. “A gente tem trabalhado com as grandes hyperscalers para fazer a definição dos standards que elas precisam”.
Segundo ele, essas empresas já antecipam o crescimento exponencial do tráfego. “Elas sabem que o crescimento não é linear, é exponencial. Então, elas dizem: eu preciso dimensionar minhas redes de forma diferente” - processo que é sustentado por pesquisa e desenvolvimento. “Aí entra o nosso centro de P&D. E a gente tem o Bell Labs, que tem presença nos Estados Unidos e em outros países, com dez prêmios Nobel”.
O resultado é a transformação da inovação em aplicações concretas. “A gente consegue trazer essa inovação para o produto. E é isso que a gente está aplicando hoje na rede da Eletronet”. E, além da capacidade, o novo backbone traz ganhos operacionais importantes, reforçou Mezzasalma.
“Essa nova tecnologia não permite só mais capacidade, menor energia e menor latência. Ela permite também toda uma integração de serviços. A rede passa a operar de forma mais inteligente. Ela se torna mais autônoma, permite fazer a integração de uma forma muito mais simples e prover o serviço de forma mais eficiente”.
Esse modelo está alinhado a uma visão mais ampla de ecossistema. “A gente acredita que as plataformas têm que ser abertas e todos os parceiros contribuem para isso". Ele destacou a importância da colaboração no projeto. “A Eletronet com a infraestrutura crítica e capilaridade, a Nokia entra com a tecnologia óptica e a NEC vem apoiando na integração”.
A complexidade do projeto exige não apenas tecnologia, mas integração eficiente, ponto que foi destacado por Roberto Murakami, head de Redes e Inteligência Artificial da NEC América Latina. “Essa integração é sofisticada. São dezenas de novos pontos de presença e milhares de quilômetros de rede. Você precisa ter uma governança técnica muito bem feita”, afirmou.
Segundo ele, o primeiro passo é garantir a operação plena. “Primeiro, a gente tem que estabelecer a rede e fazer ela funcionar de acordo com o que foi planejado. Mas isso não é suficiente - e sim “usar as funcionalidades dos equipamentos na sua totalidade. Explorar realmente as características técnicas que vão trazer vantagem competitiva”, de acordo com Murakami.
Ele citou exemplos concretos. “Tempo de configuração, autoconfiguração, tecnologias automáticas via software. É realmente o que está se trazendo de melhor. As redes modernas exigem evolução constante. A rede é praticamente um ser vivo. Hoje você precisa de três interfaces, amanhã precisa de dez, porque o cliente exige”, afirmou.
Esse dinamismo exige flexibilidade. “O mercado muda e estabelece novos desafios todos os dias. Isso é o que eu chamo de flexibilidade da malha de rede. É sempre urgente, é sempre prioritário. Sempre tem alguém esperando aquilo acontecer”.
Para garantir que o investimento gere valor ao longo do tempo, Murakami destacou a importância do ciclo completo do projeto. “O projeto começa, é implementado, mas não para por aí. Tem expansões, tem adaptações, tem coisas que não saem como planejado”, afirmou. Ele ainda ressaltou a necessidade de ajustes contínuos. “Você vai ter que replanejar e redesenhar a rede. Isso faz parte do dia a dia. A parte de pós-venda, manutenção e upgrades é fundamental para sustentar essa operação”.
Ao final, Murakami sintetizou o desafio central da infraestrutura moderna: responder rapidamente às demandas do mercado. “Como você consegue adaptar a rede às necessidades do usuário final, com flexibilidade, é o que vai garantir o sucesso”, afirmou. E concluiu destacando que o diferencial não está apenas na tecnologia, mas na execução. “É como você monta, integra, opera e evolui essa rede ao longo do tempo”.
O avanço da economia digital, impulsionado por inteligência artificial, 5G, internet das coisas e novas arquiteturas de processamento distribuído, coloca toda a infraestrutura sob uma pressão inédita. Com o tráfego global crescendo acima de 25% ao ano, a discussão deixa de ser apenas sobre expansão e passa a envolver limites estruturais, ritmo de investimentos e capacidade de antecipação.
Ao abordar esse cenário, o CEO da Eletronet, Rogério Garchet, destacou que a tendência não é de estabilidade, mas de aceleração. “A nossa visão é que a gente deve ter um salto muito acelerado de conectividade, e esse movimento não é impulsionado por um único fator, mas por uma convergência de tecnologias. “A gente está falando muito de IA, e ela tem um nível de consumo que envolve muita energia e muita conectividade. A gente tem o 5G, principalmente agora no Brasil, que está se instalando, já se fala em 6G, só para todo mundo já começar a se habituar com isso”.
Garchet também chamou atenção para uma tecnologia que ainda não atingiu seu potencial. “A gente está falando de IoT também, que a gente falava muito disso, esquecemos um pouco, mas a IoT nem começou a andar ainda.”
O impacto desse movimento tende a ser significativo. “Então, o consumo de dados, apesar de ser pequeno hoje, mas a quantidade de demanda que existe em IoT vai ser super crescente. Diante desse cenário, a infraestrutura precisa evoluir em escala e complexidade. Nós estamos nos preparando para isso. A gente falava de capacidade, depois começou a falar de fibras, agora a gente está falando de múltiplos de fibra”.
Apesar do potencial, Garchet voltou a destacar um entrave recorrente: o ambiente regulatório e burocrático brasileiro. “No Brasil você tem muitos desafios, como os desafios de cidades, desafios naturais, licenças para se operar. O Brasil, infelizmente, não avança muito na burocracia”, afirmou.
Ele defendeu maior agilidade sem abrir mão de responsabilidade. “Aqui ninguém está falando em desrespeitar nenhum tipo de ambiente, ESG, nem nada disso. A gente respeita tudo, preserva. Inclusive, optamos por tecnologia que gasta menos potência por transmissão de dados. Porém, a gente pode fazer a coisa certa com mais velocidade. Esse é o desafio. A gente fica naquele vai, freia, vai, freia. Isso é muito ruim para nós que gerenciamos empresas e para o investidor que está colocando dinheiro”, afirmou. “A gente quer acelerar. A oportunidade é gigantesca para a gente”.
Ao comentar esse cenário, o CEO da Scala Data Centers, Marcos Vinícius Peigo, trouxe a perspectiva de quem opera grandes estruturas de infraestrutura digital, e para quem a interrupção simplesmente não é uma opção. “O problema desse ‘andar e parar’, no meu caso, é que o nosso é do tamanho de um trem. Não é fácil parar. Ele não para, e esse é o problema. O dinheiro foi, o dinheiro vai indo”, afirmou.
Ele explicou que o investimento em data centers exige continuidade. “Quando você começa, você não consegue interromper no meio do caminho. É uma estrutura de investimento contínuo”.
Peigo apresentou uma visão quantitativa do potencial brasileiro. “Hoje o Brasil está mais ou menos em 650 megawatts de mercado. Se a gente conseguir isolar as cargas locais, a gente pode chegar a 2, até 4 gigawatts”, afirmou. “Se a gente trouxer cargas internacionais, a gente pode chegar a 10 gigawatts”.
Esse crescimento depende de condições específicas. “Com o mínimo de competitividade e uma legislação de dados que permita a inviolabilidade do dado internacional, a gente consegue trazer esse processamento para cá. E aí estamos falando de um investimento de ecossistema completo: data center, conectividade, energia, computação e integração”, afirmou. “Esse é o tamanho da oportunidade que a gente tem na mão. E eu deixo aqui o convite para que a gente se una nessa discussão”.
Rafael Mezzasalma, da Nokia Brasil, destacou que um dos principais entraves do país está na estrutura de custos. “Você vai ter infraestrutura, mas a gente está trazendo equipamentos com muito mais imposto, com muito mais dificuldade”, afirmou. “Hoje, a taxa tributária do Brasil impede essa competitividade”.
Ele defendeu a necessidade de alinhamento com o cenário internacional. “É fundamental que o Brasil se equipare em custos a outras partes do mundo.”
Ao mesmo tempo, destacou o impacto positivo da infraestrutura sobre o desenvolvimento do País. “Quando você traz computação, inteligência artificial e aplicações, você está elevando a barra para os nossos estudantes. Você cria um mercado que antes eles não teriam acesso. Isso é geração de riqueza para o Brasil".
Ele concluiu reforçando a necessidade de maior articulação entre os atores do setor. “A gente, como sociedade de infraestrutura, tem tentado se colocar. Talvez seja necessária uma coordenação um pouco mais próxima para adequar esses sistemas”, afirmou.“Antes de mais nada, a gente está aqui trabalhando pelas nossas empresas, mas a gente quer que o Brasil dê certo, que o Brasil cresça e que a gente gere oportunidades. Muitas vezes a gente tem que dar um respiro fundo e seguir em frente. E é isso que a gente faz”.
Encerrando o painel, Roberto Murakami, head de redes e inteligência artificial da NEC América Latina, trouxe uma visão histórica e ao mesmo tempo pragmática sobre o posicionamento do Brasil.
“Escutando o que o pessoal falou, o que eu vejo é que existem ondas e ondas. Talvez a gente tenha perdido a primeira onda, mas outras ondas virão”, afirmou.
Ele fez um paralelo com a evolução das telecomunicações. “Eu vi a evolução do telefone discado analógico até o que a gente tem hoje. E como isso evoluiu? Qual foi o papel da indústria nisso?”
Segundo ele, o país ainda tem oportunidades. “Não é porque a gente perdeu a primeira onda que não vai ter a segunda, a terceira. A gente vai estar cada vez mais preparado. Eu acho que o Brasil tem um DNA próprio para isso. O brasileiro é criativo. Não sei se ele aprendeu ou se adaptou, mas ele é criativo”, afirmou.
Para ele, esse atributo pode impulsionar o desenvolvimento. “Isso vai ser impulsionado de uma forma ou outra. Mesmo que a gente tenha perdido a primeira onda. Vai haver entraves novamente, vão ter questões políticas, mas, de forma gradativa, isso vai acontecendo”, afirmou.
E deixou uma mensagem direta ao setor. “O que eu falo é: não perca a paixão. Continuemos lutando que um dia a coisa vai engrenar”.